
Afogados da Ingazeira já teve um magote de prefeitos bons. Mas também
teve deles ruim que só a palavra teje preso. Já ia esquecendo de registrar a
passagem de uma prefeita, única na história até os dias de hoje. Entre os
muitos que passaram lembro-me de Antonio Mariano de Brito que pegou um tempo
ruim da febre do rato, como diz o ingnorantiu. Ah, mas o “Cavaleiro da Paz”, apelido
colocado pelo radialista Carlos Ribeiro ajudou muita gente. Foi o político da
pobreza. O Pneu de estepe achou de assumir a prefeitura mesmo nos quatro anos
de seca. Se Graciliano Ramos tivesse passado por aqui ele ia ver a miséria do
nosso povo...
O que era de caixão de defunto, de remédio, latra de leite, pacote de café e de
bolacha, ele dava. Fora os coros de rato que andava nos bolsos. Vez por outra
distribuía pros pé inchado encher o tolé de cachaça. Tinha uma infame de uma
bolacha chamada Peteca, ô bicha ruim cachorra da molesta. Era a mais barata nos
mercados. Minha mãe só comprava dela. Eu reclamava que só a bixiga. Não devia
nem fazer tanta lamentação, quem mandou nascer pobre. Fica na tua rapaz! “É
melhor ser pobre e ter a consciência tranqüila do que ter tudo com o remorso da
desonestidade”. Tem um padre que toda hora diz isso na Rádio Pajeú. De tanto
ouvir gravei no meu pobre subconsciente e não esqueço nem que a vaca tussa.
Depois que deixou a prefeitura, o “Cavaleiro da Paz” que chorava melhor dos que
aqueles atores de novela em cima dos palanques, apresentou João Alves Filho
como seu sucessor. O danado até que era gente boa. Honesto, trabalhador,
transparente, mas era mais grosso do que papel de enrolar prego. Isso já tá
manjado! Eu tô te perguntando cabra besta, mais manjado do que o jeito de
Antonio Mariano fazer política e o povo ainda cai na dele! Tem uns intrusos que
não nos deixa terminar a história, vai te lascar! Pois bem, seu Joãozinho
ganhou a eleição e muita gente pensava que ele ia ser igual, ou melhor, do que
o Mariano. Quebraram a cara. Seu Joãozinho era do estilo Barão Valadares, dizia
as coisas na cara, com ele não tinha meio termo. Era uma ingnorâncias daquelas
sem malícia nem maldade, uma coisa bem natural de um homem sério da roça.Trouxe
muitos benefícios pra cidade. Ajudou a uma infinidade de pessoas dentro daquilo
que ele via necessidade. Naquele tempo não existia essa política mesquinha.
As famílias se davam ao respeito. Hoje os pais não têm mais domínio sobre os
filhos, ou seja, aquele espírito antigo de liderança. Isso tomou doril. Hoje
qualquer candidato majoritário vai pedir voto numa casa aí quando vê o adesivo
pregado na porta fica logo assustado, mas o cabra grita lá da cozinha: - quem
vota no candidato do cartaz é meu pai, eu voto em quem me ajudar! O político
que não é besta pergunta: - qual é o problema meu amigo se aprochegue? Na maior
cara de pau o mardito fala bem mansinho: - Tô precisando de uma Carta de
Habilitação, você é quem sabe, tem eu e minha noiva, eu garanto ainda lhe
arrumar uns dez votos.
Olha que a gente fica com a brucuta quando escuta um sinistro desse. Triste dos
políticos do Brasil se não fossem estes imbecis. Geni do Bar inventou de ser
candidato a vereador e não deu um alfinete, mas também o triste não teve o
primeiro voto, até o dele ele errou na hora de votar. Depois da eleição o
petebista andava com um caderno entrevistando o povo: - você votou em mim?
Claro, todo mundo ia dizer que sim. O povo é falso que só pêido de frango que
sai do furico sem dar sinal algum. Geni já tava com uma lista de 1.146 pessoas
que disseram ter votado nele. Coitado, depois dessa resolveu nunca mais entrar
em política.
Mas voltando ao assunto, um carro havia atropelado uma vaca no Sítio Curral
Velho, na zona rural do município de Afogados da Ingazeira, o dono do animal
querendo tirar o prejuízo foi até a casa de seu Joãozinho pedir que ele
autorizasse abatê-lo no Matadouro Público, ou seja, tirar o couro e aproveitar
a carne vendendo aos amigos e até nas tarimbas do Açougue. O prefeito disse em
alto e bom tom que não admitia e foi logo dispensando o proprietário que estava
junto com dois amigos. Eles até que insistiram, mas seu Joãozinho não deu
ouvido. Minutos depois chegaram mais dois amigos do proprietário da vaca e
pediram novamente a seu Joãzinho para abater o animal e a resposta já foi com
uma polpa daquelas: - Eu já disse que não, cadê o dono da vaca que eu quero
dizer umas verdades a ele. Ora, será que a gente não tem direito de ficar em
paz nem em casa, façam o favor de não mais vir aqui tratar desse assunto. Estou
de saco cheio!
Por arte do cão, um parente de Antonio Gomes, comprador de gado, adoeceu e
precisava urgentemente de uma ambulância. Como era eleitor do vereador João
Amaral, Antonio Gomes o procurou para ir até a casa do ilustre prefeito. Não
deu outra, eles foram bater lá. Animado João Amaral disse a Antonio Gomes: -
pode deixar Antonio, vou resolver isso numa boa com Joãzinho, não é possível
que um vereador não seja bem recebido na casa dele, inda mais eu que votei e
trabalhei pra ele. Você vai ver a receptividade, nunca fui à casa de prefeito
nenhum, esta é a primeira vez e espero que fique na história. Partiram os dois
na maior tranqüilidade. Quando chegaram à casa do prefeito o encontraram assistindo
ao Jornal Nacional. O vereador João Amaral bateu palma e gritou: - ô de casa!
Seu Joãozinho resmungou do sofá: - não dou nem às horas.
Ele pensava que eram outras pessoas que estavam a sua procura para pedir pelo
proprietário da vaca atropelada. João Amaral bateu palmas novamente e disse
baixinho: - não é possível rapaz, Joãozinho está me desconsiderando. Vou chamar
só mais uma vez, se ele não vier nós vamos embora: - ô de casa! Nisso seu
Joãozinho pula do sofá com uma cara feia da gota serena, pior do que um
maribondo quando vai dar uma ferruada na cara de um cristão. Aperreado e
fechando o zíper da calça respondeu num tom daqueles, parecido com o Barão
Valadares quando está com os cachorros da molesta nos couros: - Eu já disse que
não viesse na minha porta, não mato, não mato e não mato! Aí João Amaral falou:
que história de matar João, eu vim aqui resolver uma coisa e você vem com
quatro pedras na mão. Bora Antonio deixa ele aí, pensei que ia ser bem recebido
na sua casa, como a gente se engana.
Joãozinho todo desconcertado falou: - espere aí João Amaral, eu pensei que você
vinha pedir pra abater a vaca daquele cabra importuno do Curral Velho. Aí o
vereador disse: - que diabo de vaca rapaz, eu tenho nada a ver com isso, eu vim
aqui falar um carro pra Antonio Gomes levar um parente pra Recife. Pra demover
a fúria do Amaral, Joãozinho falou com muita educação: - sendo assim entre e
vamos ver sua situação. Eu tô cum a cabeça Frumigando de raiva, se eu pudesse
não ouvia falar em vaca hoje. Quem quiser seu meu amigo não fale desse bicho
aqui dentro de casa. João Amaral respondeu: - Tu já vem com tuas ingnorâncias?
Se ficar assim eu vou embora. Joãozinho fumaçando pelos ouvidos disse: - o que
boba serena houve cum tu João, ô cabra bruto, inda dizem que o ingnorante sou
eu, oxe!
POSTADO
POR ITAMAR FRANÇA